15 maio 2008

A NOVELA DA FEIRA DO LIVRO

A novela da Feira do Livro conheceu ontem outro episódio dramático. Como a APEL (uma das associações das editoras) ainda não entregou o plano da distribuição dos pavilhões no Parque Eduardo VII, a Câmara decidiu suspender a montagem da Feira. Todos sabemos que o que está em causa é muito mais do que a Feira do Livro. No entanto, parece absolutamente inacreditável que a uma semana da sua abertura, ainda exista tanta indefinição sobre a Feira. Este é um exemplo crasso de como temos uma cultura organizativa muito deficiente e demasiado reactiva. Assuntos que já deviam ter sido abordados e resolvidos há semanas (ou meses) atrás, ainda estão na ordem do dia, ameaçando a própria realização da Feira. Inacreditável, patético e demasiado triste para poder acreditar.
Neste sentido, interessa reflectir sobre alguns aspectos que rodeiam esta polémica:
  1. A questão dos pavilhões diferenciados (que tem estado no centro da polémica) é uma falsa questão. O grupo Leya não é invulgarmente inovador neste aspecto, pois já nos anos anteriores algumas editoras tinham tentado ter pavilhões diferenciados nas feiras do livro, propostas prontamente ignoradas pelos organizadores do evento. A diferença é que, até agora, nenhum grupo editorial tinha tido força suficiente para impor a existência de pavilhões diferenciados. A constituição do grupo Leya alterou por completo esta situação. Apesar da abordagem da Leya não ter sido a mais correcta (faz lembrar os "bullies" nas escolas secundárias), há méritos inegáveis. Para bem ou para mal, depois deste ano, a Feira nunca mais será a mesma. Provavelmente, a partir do próximo ano, a Feira será mais colorida, mais atractiva, mais agradável e menos bolorenta. Esperemos que sim.
  2. Num contexto mais alargado, a polémica sobre a Feira do Livro não interessa para nada. É somente um pretexto para os grupos editoriais criados recentemente em Portugal mostrarem a sua força diante dos seus pares, dos livreiros e das associações de editores. O que está em causa é muito mais do que a Feira do Livro. O que está em causa é um apurar da relação de forças entre os diversos grupos editoriais. Ao bradir os seus músculos, o grupo Leya demonstra aos outros editores e, principalmente, aos livreiros que a sua posição dominante tem mesmo um peso real no mundo dos livros. A partir de agora, quem contrariar o grupo Leya ou não acomodar as necessidades e ambições do grupo sofrerá as devidas consequências. A Leya não está sozinha neste aspecto. É sabido que a Bertrand tem tido uma política de compra de livros nas suas livrarias muito mais selectiva do que há alguns anos e, de certa forma, mais penalizadora das pequenas editoras. Ora, isto não acontece por acaso. O mercado livreiro português está em ebulição com todas estas mudanças e um equilíbrio ainda não foi alcançado.
  3. Contrariamente ao que é apregoado por muitos, a concentração não tem que ser má. Muito pelo contrário. Como já foi referido aqui, uma maior concentração poderá, em teoria, aumentar a razionalização do mercado livreiro nacional. Ora, apesar de movimentar muitos milhões de euros por ano e de existirem centenas de editoras em Portugal, o mercado dos livros ainda está muito pouco desenvolvido entre nós. Não existem dados fiáveis sobre as vendas de livros, não há agentes literários a funcionar entre nós, e as coisas ainda se fazem como há 30 ou 40 anos atrás, quando ainda não havia computadores para gerir stocks e auxiliar a distribuição dos livros. A concentração editorial poderá melhorar este estado de coisas, ao contribuir para um aumento da concorrência editorial, bem como da qualidade dos produtos vendidos. Claro que a concentração editorial acarreta riscos, mas não tem que ser tudo mau.

Em suma, o que esta polémica indicia é o quão feudal ainda é o mercado dos livros em Portugal. Ainda assim, esperemos que o bom senso prevaleça no final e que as lições aprendidas contribuam para melhorar o mercado livreiro português.

1 comentário:

Rui Pedro Lérias disse...

A Leya veio dar um abanão ao mundo editorial/livreiro português. E à aterosclerótica APEL.

E já fazia falta!

Começa a ver-se uma nova geração de livreiros independentes e a diversidade de editoras é cada vez maior.

A Leya é o catalisador mas engane-se se acha que vai ser o produto final e o maior beneficiário. Irá tentar ser, mas se a reacção de livreiros e editoras estiver à altura não conseguirá impor as suas tácticas.

Eu espero sinceramente é que estes episódios acabem com o monopólio da APEL enquanto representante de livreiros. É altura de surgir uma nova organização de livreiros independentes.