14 maio 2008

OS EXEMPLOS QUE VÊM DE CIMA

Os políticos fartam-se de apregoar que a política é a actividade mais nobre que existe. Que estão na política por amor à camisola. Que estão na política para dar o exemplo. Que a vida pública merece e necessita de uma seriedade acima da média. Neste sendido, este governo tem tentado implementar medidas que visam aumentar o bem-estar comum, mesmo que se tenha que restringir benefícios privados. É exactamente nesse prisma que foi introduzida a lei do Tabaco, que tanta celeuma causou entre nós.
É por isso que é tão lamentável a notícia que o primeiro-ministro e o ministro da Economia se deram ao desplante de fumar num avião fretado para a viagem governamental à Venezuela. Mais uma vez se aplica a máxima que todos são iguais perante a lei, mas alguns são mais iguais do que os outros. Prega-se a moralidade e altos princípios de ética e moral, e faz-se exactamente o contrário. Proibe-se o fumo em locais públicos para logo se autorizar os nossos governantes a desrespeitarem a lei. Um disparate e um verdadeiro atentado à inteligência dos portugueses.
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Noutro país europeu, semelhante atitude não seria perdoada nem pela opinião pública, nem pelas várias forças políticas. Noutro país europeu o primeiro-ministro e o ministro da Economia seriam certamente forçados a demitir-se ou, no mínimo, seriam forçados a apresentar uma desculpa formal ao povo português pelo insulto que eles acabaram de cometer. Pela hipocrisia aberrante que semelhantes sobrancerias implicam. Em Portugal, país de brandos costumes e líder incontestável das práticas de desresponsabilização pessoal, certamente que nada de especial irá acontecer nem ao primeiro-ministro nem ao ministro da Economia. Uns protestos aqui e ali na blogosfera, uma ou duas piadas de mau gosto dos partido da oposição, mas mais nada.
Ora, o que o primeiro-ministro teima em não compreender é que os maus exemplos que vêm de cima têm consequências, tanto a nível político como da credibilidade das políticas apresentadas. (p. ex. Se o primeiro-ministro se dá ao direito de fumar num lugar público, como é que tem a autoridade moral para punir quem quer que seja com a lei do Tabaco introduzida pelo seu governo?) Os exemplos que vêm de cima são fundamentais para o bom funcionamento da economia e a boa aplicação das leis. Era bom que o primeiro-ministro assim o entendesse de uma vez por todas.

2 comentários:

LUIS FERNANDES disse...

CICUTA PARA SÓCRATES?
Antes de começar a dissertar sobre o mal dos outros, e para que conste, não fumo, nem nunca estive “agarrado” a esse vício. Este facto dá alguma superior consistência moral ao que vou argumentar? Nada disso! Pessoalmente, estou a marimbar-me para quem fuma, desculpem a expressão. Normalmente, não me incomoda que mandem umas passas ao pé de mim, mas se me aborrecer, eu, sem grandes cerimónias, recrimino quem o faz. Se eu mandasse, jamais legislaria sobre a lei tabagista. Creio, para mim tenho a certeza, de que a liberdade de fumar ou não, é do foro íntimo de cada um. O Estado, numa obsessão proteccionista, de tudo controlar, não olha a meios para invadir a esfera privada de cada um de nós. Funciona como uma espécie de “papai Noel” nacional, aquele que se preocupa muito com a saúde dos seus filhos, como quem diz, com a saúde dos seus cidadãos. Mas é aparência, simplesmente aparência! E a prová-lo estão os encerramentos dos vários SAPS e urgências por todo o país. Facilmente se vê que este Estado paternalista apenas e só se preocupa com a receita que fica aquém das despesas.
Voltando ao tema inicial, que, já teriam adivinhado, tem a ver com o facto do primeiro-ministro José Sócrates ter sido apanhado a fumar a bordo de um avião a caminho da Venezuela, não deixa de ser ridículo como é que, de repente, um caso fortuito se transforma em abertura de telejornal em tudo o que é canal televisivo e crónica de jornalista, por mais experiente que seja.
Só a psicologia social explicará este comportamento mimético, de carneirada abstrusa e sem pingo de discernimento. Sócrates, pelo facto de ser primeiro-ministro, não é humano? Ora, sendo, naturalmente que não está imune a deslizes como qualquer um de nós. Esta condenação colectiva têm algo de ressabiada. É uma comunidade que não está bem. Não gosta de si própria, não se aceita, e como tal, na primeira oportunidade aponta aos outros os seus próprios defeitos. Em vez de se apontarem armas ao “pobre” homem, dever-se-ia, pelo contrário, reivindicar que se olhasse para cada um de nós como apenas humanos errantes e pecadores. Pugnar para que quem faz cumprir a lei seja indulgente e tenha em conta que somos apenas e só pessoas. Que é o homem que faz o estatuto e não o contrário. Que por mais alto que este estatuto de classe seja, põe a nu, quase a ridículo, o “ser” homem, indefinido e pré-determinado, e não evita o “errare humanum est”. Que bem que me sinto, nestas alturas, na minha qualidade de anónimo e anódino cidadão.
Nunca gostei de puristas. Não quer dizer que às vezes, eu próprio, não tenha recaídas. Mas tento compreender os erros de cada um. Sou liberal, se é que isso quer dizer alguma coisa. Não gosto de fundamentalistas. Religiosos, políticos, culturais, sociais e outros de tais. Não quer dizer, devo admiti-lo, que muitos que criticam não tenham razão e não devam fazer. Toda a crítica é construtiva, independentemente de ser ou não destrutiva. É apenas crítica. E é precisamente por o ser, que fazendo pensar o direccionado por esta, que é sempre salutar. E isto quer dizer o quê? Que quem diz que o exemplo deve vir de cima, tem toda a razão, e estou-me a lembrar de um bom livro que estou a ler, “Os Mitos da Economia Portuguesa”, de Álvaro S. Pereira, que, muito bem, lá põe os pontos nos ii. Porém, penso, os radicalismos são sempre perigosos. E, assim sendo, não vamos condenar o primeiro-ministro a ser chicoteado na praça-pública ou, como o seu homónimo, fazê-lo ingerir cicuta para evitar que cada um de nós pense por si, ou fazê-lo pagar, de uma penada, todas as nossas frustrações.
LUIS FERNANDES
(COIMBRA)
(www.questoesnacionais.blogspot.com)

Antonio disse...

Boa noite Álvaro,
Finalmente e com grande gosto vejo-o defender a teoria que o exemplo tem de vir de cima. Você não vive cá e talvez não se aperceba . Grande parte da classe média está destruida. Os mais pobres estão em apuros.Os sacrificios são enormes. E depois há uns Xicos espertos que estão acima da lei.

E o Sr.Sócrates desculpa-se dizendo que ignorava a proibição.

Não sabe o nosso 1º que a ignorância da lei não aproveita a ninguém? É esta equipa que nos governa e se propõe governar-nos por mais meia dúzia de anos?

E já agora, noticias do dia.

Crescimento da União do último trimestre: +0.7% Portugal:-0.2%
Número de dias que os Portugueses tiveram de trabalhar para pagar os impostos: 2007 - 136 dias; previsão para 2008 - 137 dias.
Esta é que foi a verdadeira reforma. Crescimento do número de pessoas em Portugal no último ano que recorrem ao Banco Alimentar contra a Fome: 236.000 portugueses.
Recusa de Teixeira dos Santos en aumentos intercalares devido à subida da inflacção. Porque isso geraria tensões inflacionistas. Até aqui tudo bem. Mas qual foi a sua defesa? Que a subida de preços se limita ao petróleo e alimentos. A que os portugueses se têm de habituar. Como sempre são os mais pobres que sofrem. A justificação técnica entende-se. A afirmação política é de mau gosto. Transportes publicos privados ameaçam não sair à rua se não for autorizado um aumento de 6%.
Pela 1ª vez em Portugal houve mais mortes do que nascimentos. Mais 1514 mortos.Isto diz tudo sobre o estado de Alma dos portugueses.
Acabei de ouvir o nosso 1º dizer que temos que fazer crescer as nossas exportações para inverter as tendências negativas da nossa economia. Na minha actividade exporta-se para fora da zona Euro. Devido à força do Euro a minha actividade entrou em recessão. Ainda ontem foram 3 horas de reunião com um buyer. Não se chegou a acordo por uma unica questão. Preço. O Euro subiu 20%.
E o nosso 1º sonha com aumento de exportações? Será que estamos perante um caso de esquizofrenia?

Por ultimo,os anuncios do nosso 1º Na última semana foram 400.000.000 de Euros para investigação.Não seria mau.Se não fossem os outros milhões já prometidos. É que são dois anuncios em média por semana. E ainda estamos longe das eleições. Aonde vamos parar?

Fique por aí. Por cá só de férias.

Um abraço