11 maio 2008

O SUPEREURO E AS EXPORTAÇÕES NACIONAIS_ Perguntas (16)

O Luís Leitão comenta e pergunta:
"Olhando bem para os números, talvez o impacto que a valorização do Euro tem nas nossas exportações, se calhar não será tão estrondoso como se possa pensar à primeira vista. Olhando para os dados do Eurostat (http://tiny.cc/9kP8e) ficamos a saber que no período de 2003 a 2007, as trocas comerciais entre Portugal e os estados-membros da UE-27 decresceu apenas 4% (4,4% nas exportações e 4,1% das importações). Se considerarmos ... que neste período houve uma valorização de 70% do Euro face ao dólar, penso que "não será por isso que o gato deixará de ir às filhoses". Além disso, convém lembrar que Portugal continua a ser um dos países da União Europeia que mais trocas realiza so seio da UE-27: 75,4% do total das importações e 76,7% do total das exportações nacionais é feito dentro do espaço económico europeu. Outro ponto a assinalar é o elevado grau de integração dos 27 Estados-membros: cerca de 65% por cento do comércio realizado por estes países é actualmente feito dentro da UE e sem influência directa de valorizações cambiais. Significa que a maioria das exportações e das importações é feita no espaço europeu. Todavia, poderemos sempre argumentar que, sendo a Alemanha, a França e a Inglaterra os motores do crescimento europeu e os grandes polos de destino das nossas exportações, e que fazem depender perto de 40% das suas exportações do mercado além fronteiras europeias que, por arrastamento, a valorização do Euro acabará por influenciar indirectamente as exportaçoes portuguesas. Porém, é tudo uma questao de relativismo. Por isso, deixo uma questão para a qual não tenho resposta: qual é o real impacto da valorização do euro nas exportações portuguesas?"
Luís,
Obrigado pelos excelentes dados e pelo comentário. É verdade que é tudo uma questão relativa. Mesmo assim, é de assinalar que entre 1999 e 2007, houve um declínio considerável (em termos relativos) das nossas exportações na UE. A UE ainda é o nosso principal cliente, pois, como afirma, 76.5% das nossas exportações destinam-se ao mercado europeu. É bastante, sem dúvida. No entanto, é preciso também dizer que em 1999, este valor era 84,2%. Ou seja, houve um declínio de 7.7 pontos percentuais neste indicador. Em parte, isto explica-se pela maior diversificação das exportações portuguesas para outros destinos. Mesmo assim, é patente que que houve uma acentuada quebra de tendência e esta quebra não é necessariamente "normal". Vejamos porquê.
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Quando os países se juntam num acordo de integração económica, quase sempre os fluxos comerciais são redireccionados para os novos parceiros económicos. Quando os países em causa são vizinhos ou quase (ie. pouco distantes geograficamente), este tendência de integração costuma aumentar (quase) anualmente. Foi exactamente isto que aconteceu quando aderimos à então CEE.
Neste sentido, o que é de assinalar é que esta tendência de crescente integração (ou redireccionamento das nossas exportações) foi quebrada sistematicamente nos últimos anos. Qual a causa? Uma diversificação dos mercados-destino das nossas exportações (o que é de saudar), ou a menor competitividade dos nossos produtos?
A resposta é um misto destas razões. Porém, alguns estudos indiciam que tem havido uma perda de competitividade das nossas exportações. Porquê? Porque o euro forte diminui a atractividade dos nossos produtos (que concorrem com os bens de outros países dentro e, principalmente, da eurolândia) e porque as nossas exportações mais "tradicionais" têm sofrido maior concorrência dos países da Europa de Leste e da Ásia.
Qual é o verdadeiro impacto do euro nas nossas exportações? É difícil destrinçar o efeito euro forte deste efeito da maior concorrência dos produtos dos países fora da Eurolândia. Ainda assim, é inegável que uma moeda forte tem penalizado grandemente muitas das empresas que subsistiam "artificialmente" devido às diversas desvalorizações do escudo.
Até às nossas empresas se ajustarem completamente às realidades de uma moeda forte, é natural que as exportações continuem a ser algo penalizadas.

1 comentário:

Luís Leitão disse...

Ola Álvaro,

Antes demais obrigado por trazer este assunto à tona.
Quanto à sua justificação, permita-me discordar da sua ideia de que o euro forte trouxe "menor competitividade dos nossos produtos". Pelo contrário, penso que o facto de termos perdido a possibilidade de mexermos na política monetária a nosso belo prazer trouxe sobretudo credibilidade e transparência à economia nacional. Simplesmente porque, não podendo agora o Governo, pela intervenção do Banco de Portugal, desvalorizar/valorizar a moeda consoante as suas necessidade, é obrigado a centrar-se nos problemas estruturais do país.
Quanto à falta de competitividade dos produtos, é bom lembrar que a maioria dos bens produzidos em Portugal provinham da indústria téxtil, do calçado e dos bens agrícolas. Se nos 2 primeiros, penso que a falta de produtividade não se ficou a dever pela valorização do euro, apenas e só porque durante mais de 20 anos foram indústrias fortemente subsidiadas e alvo de políticas proteccionistas dos vários Governos nacionais, e que em vez de aproveitarem estas benesses para se desenvolverem e produzirem bens com maior valor acrescentado, os seus empresários limitaram-se a utilizar esse dinheiro para construírem casarões e brutos carros. Será apenas coincidência que o norte do país foi e continua a ser a região onde o diferencial entre ricos e pobres é maior? Por essa falta de responsabilidade empresarial, hoje são dos sectores que maior dificuldade atravessam.
No caso da agricultura, é um exemplo de como quando os subsídios se esgotam as dificuldades vêm ao de cima. Abstraindo-me de todas as desvantagens que considero virem dos subsídios da PAC (regras impostas pelos países ricos para ganharem no jogo da Globalização agrícola de forma batoteira), a verdade é que com a entrada de novos estados-membros na União Europeia, esta ajuda tem chegado cada vez em menor número aos agricultores nacionais. Desta forma, menos dinheiro têm os agricultores recebido e tornado os seus produtos cada vez menos viáveis, apenas e só em termos de preço, quer no mercado externo e no mercado europeu, como até no mercado nacional.

Posto isto, considero que a quebra das exportações nacionais não se deve na sua essência à valorização do euro mas sobretudo a problemas estruturais e de uma mentalidade fraca da generalidade da classe empresarial que, ao contrário do que se possa pensar, continua a ter fortes lacunas ao nível da formação.

abraço
lmleitao