26 outubro 2010

O EXEMPLO ALEMÃO

O Wall Street Journal tem hoje um artigo que tenta "explicar" o recente sucesso alemão. Enquanto a Europa estagna, o Sul da Europa (Portugal e Itália) entra na sua segunda década perdida, e países como a Espanha, a Grécia e a Itália têm acumulado elevados défices externos (ou seja, as suas exportações são bem menores do que as importações), a Alemanha cresce a ritmos muito consideráveis. Assim, as previsões mais recentes sugerem que a economia alemã vai crescer cerca de 3,4% em 2011, uma taxa de crescimento a fazer inveja a economias anémicas como a nossa.
Qual é a razão de tanto sucesso? A competitividade das exportações alemães, que têm sido a locomotiva da economia germânica nos últimos anos.
E quais são as causas de tanta competitividade? Um forte crescimento da produtividade e uma politica de contenção salarial. Estes dois factores têm contribuído para o controlo do crescimento dos custos unitários do trabalho alemão, o que tem aumentado a atractividade e a competitividade das exportações germânicas. E é exactamente isto que explica o sucesso alemão (de acordo com este artigo do WSJ, bem como segundo vários economistas) e é exactamente isto que ajuda a explicar o insucesso nacional nos últimos anos. Porquê? Porque os custos unitários nacionais têm vindo a crescer a um ritmo mais elevado do que na Zona Euro e do que em países como a Alemanha. Podemos ver isso no gráfico abaixo, que mostra como os custos nacionais têm vindo a crescer bem mais depressa do que os custos médios na Zona Euro.
Qual é o problema? O problema é que as nossas exportações têm ficado menos competitivas ou atractivas nos mercados internacionais, o que tem agravado o nosso défice externo e, consequentemente, tem contribuído para a subida do endividamento externo (pois temos que financiar a diferença entre as importações e as exportações). 
Para deteriorar a situação, em 2009 os custos unitários nacionais subiram ainda mais por motivos eleitoralistas, pois o governo patrocinou um aumento salarial na ordem dos 2,9%, embora a nossa produtividade estar não esteja a crescer. Quem pagou a factura do eleitoralismo foram as nossas exportaçoes, que perderam competitividade nos mercados internacionais, o que acentuou o défice externo.
Esta é a explicação dada por diversos economistas nacionais e internacionais. Entre nós, o economista que mais tem alertado para este mecanismo é Vitor Bento, que acabou de publicar mais um livro que ainda não li, mas tenciono fazê-lo nos próximos tempos, pois os seus livros são sempre de uma qualidade irrepreensível e muito polémicos (o que é bom).
Apesar de concordar em parte com este argumento, eu tenho uma explicação alternativa para os nossos problemas de competitividade. Mas isso fica para o novo livro, que continua a ser escrito a bom ritmo.

Gráfico_ Custos Unitários do Trabalho na Zona Euro, em Portugal, na Alemanha e na Europa da Sul
 Fonte: AMECO

(Nota: clique no gráfico para ampliar)

5 comentários:

Insurrecto Meditativo disse...

A revista Bloomberg BusinessWeek dedicou, também ela, um especial à Alemanha. Cerca de 25 páginas. Muito bom. Para quem demonstrou interesse, como eu, em estudar um pouco determinadas políticas alemãs, nada de novo. Fica na retina o sacrifício salarial no início da década de 90 e a constante flexibilização do código laboral. Também explicaram o esforço orçamental encetado para diminuir a diferença entre ambas as Alemanha's, digamos assim.

Drumster disse...

Álvaro, sigo os seus posts com grande interesse. A resolução dos problemas de Portugal é uma questão de vontade. Os decisores actuais não têm incentivos para os resolver. Quando quiserem começarem a resolver podem endereçar problemas como a falta de liderança (liderar como exemplo), a inveja (se o outro rouba eu também posso roubar) e falta de vontade para aprender (que impede actualmente o desenvolvimento de competências).
Cumprimentos

CCz disse...

Tomo a liberdade de chamar a atenção para o facto de durante a primeira década do século XXI os salários alemães terem subido 9% na parte Ocidental. Mais importante do que a disciplina salarial, fundamental para a indústria automóvel alemã, é o aumento dos preços dos produtos alemães no produtor durante a mesma primeira década.
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http://balancedscorecard.blogspot.com/2010/07/alguem-quer-fornecer-um-modelo.html

Guillaume Tell disse...

Muito bem, mas se seguiamos todos o caminho da Alemanha a deflação podia ter sido uma realidade da década de 2000.

Rolando Almeida disse...

Uma sugestão Álvaro, O problema é que nós temos de ter salários mais altos para poder suportar o nível de vida interno e por quê? Porque o sector da construção elevou muito o nosso custo de vida com o preço da habitação (os alugueres seguiram o mesmo ritmo). Isto enriquece muitos industriais da construção, mas deixam uma sociedade à perna com endividamentos. Creio que a especulação imobiliária arrasou por completo a nossa economia. E não houve qualquer política para por cobro a isto. Como é possível que agregados com rendimentos de 2000€ se endividassem numa casa com prestacção de 1000€???