22 outubro 2010

O TGV CUSTA "POUCO"

Na sua entrevista de ontem à RTP, o Ministro das Finanças reiterou o discurso habitual do governo sobre o custo do TGV: é "pouco". E, ainda por cima, segundo o Ministro, o TGV não custa quase nada no próximo ano (somente 76 milhões de euros, e 60 milhões no ano seguinte). Ora, mesmo se esquecermos o pequeno detalhe de que estes cálculos só levam em linha de conta um dos dois troços do TGV Lisboa-Madrid (e não contam sequer com a terceira travessia do Tejo necessária para resgatar o TGV do Poceirão), é importante perceber quanto é o "pouco" que os contribuintes portugueses terão de desembolsar nos próximos anos. Por isso, vale a pena relembrar os custos plurianuais projectados pelo governo (através da DGTF) das parcerias público-privadas com o TGV Lisboa-Madrid, bem como do TGV Lisboa-Porto. Eu sei, eu sei. O TGV Lisboa-Porto está suspenso. Mas não nos devemos esquecer que tal só aconteceu em Maio, quando, sob pressão internacional, o governo adiou a construção desse troço. Até lá, o governo nunca se tinha preocupado com os custos do projecto. 
E quais são então os custos plurianuais com os TGVs? Uma bagatela. Algo como 400 e 500 milhões de euros por ano, todos os anos, nos próximos 30 anos (ver quadro abaixo). Como o Lisboa-Porto se encontra suspenso, quanto é que nos custará o Lisboa-Madrid todos os anos? Qualquer coisa como 200 milhões de euros. Na melhor das hipóteses. Isto só nas rendas aos parceiros privados, visto que todos os estudos encomendados pela própria RAVE mostram inequivocamente que haverão elevados prejuízos com o projecto. Um projecto que, para ser rentável, terá de atrair um tráfego de passageiros 8 vezes maior do que o tráfego aéreo anual entre Lisboa e Madrid. Muito provável, portanto.
Assim, e tal como concluí no meu livro "O medo do insucesso nacional" (Esfera dos Livros, 2009):
"O mais provável é que o TGV seja um erro financeiro de proporções colossais que fará com que os portugueses tenham de pagar mais impostos e que poderá pôr as nossas finanças públicas numa situação ainda mais delicada do que a actual. A dívida pública subirá ainda mais e os portugueses terão de pagar uma proporção maior dos seus rendimentos para liquidar os juros dessa mesma dívida. Ou seja, o retorno do TGV é extremamente incerto e podemos ter de esperar muitos anos, se não mesmo décadas, de prejuízos. Claro que, quando tal acontecer, a grande maioria dos responsáveis políticos por este projecto já não estará no poder ou numa posição de responsabilidade política. Assim, os custos do elefante branco chamado TGV serão pagos pelos governos futuros e, principalmente, por todos nós, os contribuintes. Só então olharemos para trás e nos questionaremos sobre como nos pudemos deixar seduzir por um projecto tão faraónico e tão desnecessário para as necessidades reais do desenvolvimento do nosso país. Só então é que iremos responsabilizar os dirigentes actuais pelos graves erros cometidos e pelo esbanjamento dos dinheiros públicos. A atribuição de responsabilidades será essencialmente política, mas devia ser judicial. Alguém acredita que o projecto seria aprovado se existissem possíveis consequências judiciais contra os responsáveis pela execução deste elefante branco? Como não há, como ninguém será responsabilizado pelo futuro aumento dos impostos e pelo esbanjamento dos nossos recursos, o projecto avançará como planeado."

Já agora, as contas do governo dos custos plurianuais do TGV estão aqui (em milhões de euros), num total acumulado de 13312 milhões de euros:


2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019
209.7 250 300 311.3 562.6 529.3 535.5 477.1 459.8 444.6
2020 2021 2022 2023 2024 2025 2026 2027 2028 2029
437.9 430.6 423 414.9 406.2 396.9 387 377.5 397.8 362.9
2030 2031 2032 2033 2034 2035 2036 2037 2038 2039
408.3 352.7 352.1 331.3 345.6 333.7 321.1 307.9 293.9 279.3
2040 2041 2042 2043 2044 2045 2046 2047 2048 2049
263.9 247.6 230.6 222.9 188.9 188.4 138.8 115 92.8 69.5

2 comentários:

Daniel Conceição disse...

É um preço de loucos!... E um erro colossal porque desviará ainda mais a centralidade para Madrid.
Aproveito para dar os meus parabéns pelo livro que é soberbo, e muitíssimo acessível para um não economista. Uma das melhores compras dos últimos tempos, obrigado por o ter escrito.
Já agora, quando/onde é que se consegue cravar um autógrafo?

Paulo disse...

Já há bastante tempo que me interrogo como é que os jornalistas que fazem as entrevistas ao Primeiro Ministro e ao Ministro das Finanças NÃO PREPARAM AS PERGUNTAS FULCRAIS, tendo tanto material disponível para se socorrer, como este blog ou este http://balancedscorecard.blogspot.com/ (de leitura obrigatória!).

Muito obrigado pela atenção e pelo trabalho que desenvolve!

Paulo