26 outubro 2010

PORTUGAL NA MODA

Se um extraterrestre aterrasse hoje em Portugal, não lhe seria difícil concluir que este pequeno país na costa mais ocidental da Europa está definitivamente na moda. Portugal está nas bocas do mundo e quase todos os dias os mais variados meios de comunicação social referem o nosso país nos seus noticiários ou nas suas notas de imprensa. O problema é estamos “na moda” pelas razões erradas. Portugal tem hoje a maior dívida pública dos últimos 160 anos, a maior taxa de desemprego desde a Primeira Guerra Mundial, a maior vaga emigratória desde os anos 1960 (quando mais de cem mil portugueses saíam todos os anos à procura de outras paragens), e a dívida externa mais elevada desde 1891, quando o país teve que declarar a bancarrota. Por outras palavras, a situação actual não é muito famosa, concluiria o nosso visitante.  E se esse extraterrestre tivesse a sorte (ou o azar) de saber um pouco de Economia, também não ser-lhe-ia muito complicado verificar que um dos grandes culpados por toda esta situação é o nosso Estado despesista, através da figura dos nossos governantes, que têm sido particularmente ineptos a lidar com a crise nacional que já se arrasta há uma década, e que não dá mostras de abrandar. Por isso, sabendo que o prolongar da crise só trará mais desemprego, mais emigração, e mais dívidas para os portugueses, o nosso visitante perguntar-se-ia: não haverá nada para além do Estado? Será que a economia portuguesa vive toda à sombra do Estado? Não há nada de positivo a acontecer em Portugal? Não haverão exemplos de sucesso nesse malfadado lugar?  Felizmente, a resposta a estas perguntas é positiva. Assim, se o nosso visitante decidisse viajar um pouco pelo nosso país, rapidamente concluiria que nem tudo vai mal em Portugal. Com efeito, há entre nós vários sectores produtivos que apresentam características bem distintas das acima apresentadas, sectores dinâmicos e inovadores, sectores que têm sobrevivido contra tudo e contra todos, e sectores que aos poucos se têm imposto nos mercados internacionais.  Por que é que falamos tão pouco destes sectores? Porque a nossa tendência é sempre para falar do mal e esquecer o que está bem.  Por isso, nos próximos tempos irei falar um pouco destes casos de sucesso, bem como dos sectores mais promissores da economia nacional. Um desses exemplos silenciosos de crescente sucesso é o sector da moda, dos têxteis e do calçado. Esse foi exactamente o tema do meu artigo do último fim-de-semana no Notícias Magazine, e que reproduzirei aqui nos próximos dias.

1 comentário:

José Carlos Rocha disse...

Há muitos problemas sistémicos em portugal. O mais endémico refere-se à mentalidade do valor dado às pessoas.
Um português em portugal é valorizado pelas aparências e pelo show-off capaz de realizar num jogo de sedução muito básico.
Sem qualquer sentido crítico, o julgamento sobre os recursos humanos é um jogo de manipulação que com quanto mais complexidade e intricados interesses mais se solidifica.
A minha solução pessoal tem sido trabalhar-trabalhar; no trabalho focar-me em potenciar os factores de produção e em valorizar a reflexão crítica.
A raíz desta questão é complexa e a solução (longo prazo) parte essencialmente das universidades e no sempre complexo diálogo estre estas e a sociedade, nomeadamente,as empresas.

Penso que a sua reflexão se perde em factores circunstânciais e daí faz um julgamento estrutural. As empresas são novas em Portugal. Recorde-se que o tecido produtivo nacional está em crise desde os anos 90 com a mudança de paradigma de mão de obra. Tal como aconteceu noutros locais, a industria clássica morreu. Veio a estratégia de Lisboa. Demoramos muito a resolver esta crise muito por falta de acompanhamento e de atenção a este processo de mudança. Muito devido aos problemas sistémicos de falta de educação da população,particularmente a norte. Eu considero que esta crise está a ficar resolvida mas a fragilidade dos projectos em curso é enorme, sendo que poucos grandes grupos conseguiram dar o salto e foram morrendo nas mãos dos jogos que referino início.