05 outubro 2010

PRISIONEIROS DO ORÇAMENTO


O meu texto do último fim-de-semana no Notícias Magazine foi sobre as negociações para o próximo Orçamento de Estado. O texto foi escrito antes do anúncio das últimas medidas de austeridade, mas a lógica aplica-se na mesma:

"Nos últimos dias, governo e oposição têm levado a cabo um dos exemplos mais clássicos da Economia: o chamado jogo do dilema do prisioneiro. A ideia deste jogo é simples. Imagine que dois indivíduos cometem um crime, mas são apanhados. Os dois prisioneiros começam por negar o delito e, por isso, a polícia opta por entrevistá-los separadamente para ver se um deles denuncia o outro. Para que tal aconteça, os polícias propõem uma redução de pena para o delator e um agravamento da mesma para o delatado. Se, por outro lado, nenhum deles abrir a boca, a pena dos dois será mais branda, pois a polícia não conseguirá provar o crime. Ou seja, a melhor estratégia para os dois é a cooperação entre eles, evitando denúncias.  
O jogo do Orçamento português tem a mesma lógica. Nem o Governo nem o maior partido da Oposição querem ceder nas negociações, pois os dois pensam que o primeiro a ceder perde junto do eleitorado. O primeiro-ministro não quer ceder, pois não quer ser responsabilizado pelo indesculpável descontrolo da despesa pública. E o líder da oposição não quer ceder, pois considera que uma redução da despesa é fundamental e que um aumento dos impostos é inaceitável. Assim, arriscamo-nos a cair numa situação em que o Orçamento não é aprovado e todos perdemos, pois os mercados internacionais decerto não perdoariam uma situação tão ambígua. 
Portanto, só resta uma solução: a cooperação. Como? Obtendo um acordo sobre a redução da despesa do Estado. E tal como no jogo do prisioneiro, se houver cooperação, não só ficarão os dois mais bem vistos perante a opinião pública, como também o país agradece."

2 comentários:

Daniel Conceição disse...

Não seria mais útil, para Portugal e para os portugueses, que isso se aplicasse a verdadeiras reformas estruturais e não meras operações insustentáveis de maquilhagem conjuntural?

Guillaume Tell disse...

Caro Daniel Conceição,
concordo plenamente consigo, só que esse caso de figura depende de factores conjunturais (ou seja da intelegência dos nossos dirigentes).