08 março 2011

OS NÚMEROS QUE REALMENTE INTERESSAM

Andamos todos tão concentrados e preocupados com as consequências de um eventual recurso ao FEEF e ao FMI, que às vezes nos esquecemos do terrível impacto que a crise económica da última década tem tido junto das famílias portuguesas, principalmente aquelas cujos membros perdem os seus empregos. Sim, é verdade que já há cerca de 620 mil desempregados, metade dos quais são de longa duração, números sem prececedentes na nossa história recente.
Porém, e como alguns teimam (erradamente) a atribuir a subida do desemprego à crise financeira internacional, vale a pena perguntar: quantos desempregados existiam antes e depois de 2008?
Para podermos responder a estas perguntas, comecemos por comparar o número de desempregados entre 31 de Dezembro de 2010 com o número de desempregados no início de 2000. Se o fizermos, decerto que não podemos ficar indiferentes ao facto de que em Dezembro de 2010 existiam mais de 392 mil desempregados do que em Janeiro de 2000. Destes, existiam mais 222 mil desempregados com o ensino básico do que no ano 2000, 97 mil com o ensino secundário e cerca de 61 mil desempregados a mais com o ensino superior.  
Vale ainda a pena relembrar que estes números excludem as centenas de milhares de portugueses que emigraram na última década. Se não fosse a emigração, o desemprego seria bem mais alto. Estes números também não contam com o número de "desencorajados".

Número de desempregados adicionais em 31 de Dezembro de 2010 em comparação a 1 de Janeiro de 2000, por grau de educação 


Total Sem ensino formal Básico Secundário e pós-secundário Superior
392.2 12.6 221.7 97 60.9
Fonte: INE

No entanto, como o governo insiste em culpar a crise internacional pelo desemprego, por que não dividir a última década em dois períodos: antes e depois do fim de 2008 (quando a crise internacional se acentuou). Se o fizermos e compararmos o número de desempregados em Portugal no ano 2000 com o final de 2008, é interessante verificar que, nos últimos 2 anos, cerca de 181 mil pessoas perderam os seus empregos, dos quais quase 103 mil tinham o ensino básico, 53,5 mil o ensino secundário e 17,5 mil o ensino superior.

Número de desempregados adicionais em 31 de Dezembro de 2010 em comparação a Dezembro de de 2008, por grau de educação 

Total Sem ensino formal Basico Secundário e pós-secundário Superior
181.4 7.6 102.8 53.5 17.5
Fonte: INE

E se compararmos o número de desempregados antes e depois de 2008 não é difícil concluir que, de facto, a crise internacional teve um impacto muito significativo no mercado de trabalho nacional. Ainda assim, é importante percebermos que o número de desempregados aumentou mais entre 2000 e 2008 do que entre 2008 e 2010. Por outras palavras, e mais uma vez, a crise internacional só veio agravar os enormes problemas estruturais que já temos vindo a padecer desde o início do novo século. Neste sentido, atribuir as nossas maleitas e o crescimento do desemprego somente à crise internacional não só não é verdade, como também é factualmente incorrecto. Argumentar o contrário é mera retórica política sem substância.

3 comentários:

democracia participativa disse...

É uma realidade nua e crua. Se as estatisticas estivessem correctas eu diria que cerca quase um milhão de pessoas está no desemprego. O nosso caso estaria quase ao mesmo nivel de Espanha.Mais uma vez os meus elogios para o magnifico trabalho que vem desempenhando. Bem haja.

Anónimo disse...

Antes de mais devo dizer que leio diariamente este blog e, concordando ou nao com as opinioes aqui expressas, gosto de ler os artigos.

Acerca deste: uma frase muito batida diz "os numeros nao enganam, mas os mentirosos usam os numeros". Tal pode ser dito acerca do nosso PM, mas igualmente acerca deste artigo. Nao significa isto que os numeros do desemprego apresentados estejam errados, mas sim que tentam usar alguns numeros especificos para agradar a um certo argumento.
O objectivo do artigo é, como habitualmente neste blog, não apenas económico mas também político. Desta forma seria conveniente mostrar os dados de 2008 vs 2005, e compará-los com 2010. Certamente que destruia o argumento político, mas seria um artigo bem mais honesto.

Em segundo lugar, alguns dos argumentos sao tratados com bastante leviandade: por exemplo o argumento de "se nao fosse a emigracao, onde estaria o desemprego?". Seria conveniente abordar tambem a questao da imigracao, e igualmente o numero de empregos existentes na economia (e nao apenas a taxa de desemprego ou o numero de desempregados para tirar conclusoes). Ter-se-ia desta forma uma visao bem mais honesta sobre os argumentos politicos apresentados, quer sejam numa direccao, quer noutra.

Rolando Almeida disse...

Olá mais uma vez Alvaro,
Sinceramente não sei como é que se fazem estas estatísticas, mas creio que o que vou aqui dizer deve estar completamente salvaguardado, caso contrário, estes dados pouco ou nada dizem: é certo que podemos afirmar que nunca tivemos tanto desemprego em Portugal, mas é certo também que pelo menos até à década de 80 uma franja da população não trabalhava. Na geração anterior à nossa as mulheres quase nunca trabalhavam. Ora se isto pode ser claro para um economista, com efeito, não o é para uma pessoa sem formação em economia ou sem conhecimentos de estatísticas e afirmar isso sem mais conduz a erros. Ou estou a ver mal as coisas?
abraço