07 março 2011

RESGATE, DIZEM ELES

O que pensar quando, no mesmo dia, os dois principais jornais económicos do mundo se dão ao trabalho de escrever editoriais e artigos a aconselhar Portugal a aceitar um recurso ao FEEF e ao FMI? Será uma conspiração contra o nosso país? Contra o governo? Estarão estes jornais a trabalhar a favor dos "malvados dos mercados"? A favor dos partidos da oposição? Ou será que estes não são mais do que sinais da inevitabilidade daquilo que está para vir? 
É, de facto, extraordinário o que está acontecer. Não é propriamente inesperado, visto que há meses que tudo isto era relativamente previsível. Já aqui o afirmei várias vezes, mas nunca é demais reiterar qual é a única razão que ainda não nos fez pedir auxílio aos nossos parceiros europeus e ao FMI. Essa razão chama-se sobrevivência do governo. Não é o euro, não é a solidariedade europeia e não é sequer por causa da austeridade que alegadamente nos será imposta pelo FMI. Não. O que está em causa neste momento é apenas a sobrevivência do governo. Uma sobrevivência que se faz a todo o custo, mesmo que para isso tenhamos que sobrecarregar as próximas gerações e os próximos governos com centenas e centenas de milhões de euros em juros adicionais. 
E o mais lamentável é que toda esta situação poderia ter sido evitada ou, pelo menos, minorada, se o governo tivesse seguido o conselho de muito boa gente e tivesse pedido recurso ao FEEF e ao FMI logo em Novembro, quando a Irlanda o fez. É certo que as taxas de juros oferecidas à Irlanda não foram muito apetecíveis. Porém, nessa altura não só as taxas de juros da nossa dívida pública no mercado secundário eram substancialmente mais baixas do que actualmente (e do que as irlandesas), como também o governo poderia ter-se desculpado perfeitamente que o nosso resgate se devia ao contágio irlandês. Ainda por cima, nessa altura, ainda estavamos em pré-campanha eleitoral para as eleições presidenciais, o  que teria impedido a dissolução da Assembleia da República e a destituição do governo. Como  o governo optou por não o fazer, ficou a porta aberta para que o cenário actual se tornasse inevitável. Ainda por cima,  como o governo "alcançou" as suas metas orçamentais com truques contabilísticos que já não enganam ninguém (ainda hoje o editorial do Financial Times chama a atenção para os malabarismos orçamentais com os fundos de pensões da PT), e como a execução orçamental de Janeiro deixou muito a desejar, o governo simplesmente hipotecou toda e qualquer réstia de credibilidade que lhe restava. E foi assim que, ao negar o resgate em Novembro, o governo  perdeu a sua oportunidade de ouro para tentar sobreviver mais uns meses, quiçá até mais tempo. Um cálculo político que poderá vir a sair muito caro, principalmente para o partido do governo que, contrariamente ao primeiro-ministro, tem tudo a perder com a continuação do governo por muito mais tempo.  A verdade é que quanto mais se deteriorar a nossa situação económica, mais danos eleitorais sofrerá o partido do governo nas próximas eleições, bem como nas eleições futuras. Basta ver o que é que aconteceu nas eleições irlandesas para percebermos isso mesmo.  
Independentemente desta ou de outras leituras políticas, a verdade é que se acreditarmos o que o FT e o WSJ nos dizem, só um milagre poderá evitar o recurso ao FEEF e ao FMI. Neste sentido, no editorial de hoje, o Financial Times defende que a única razão que nos faz recusar o resgate do FEEF e do FMI é o "orgulho" do governo e do primeiro-ministro. Em contrapartida, o país teria tudo a ganhar em fazê-lo desde já para não cair numa situação insustentável. Segundo o FT:

"José Sócrates, prime minister, and his minority socialist government want desperately to avoid following in the footsteps of Greece and Ireland with a request for emergency international financial assistance. They profess to believe that, if only Europe’s leaders produce a comprehensive plan for tackling the eurozone’s debt crisis, the record-high interest rates that investors are demanding to hold Portuguese government bonds will come down and the nation will be safe.
Perhaps they will be proved right. But the prospects for a grand plan that would receive approval at a European Union summit on March 24-25 look uncertain. Meanwhile, Portuguese banks are shut out of financial markets and depend on the European Central Bank for short-term funds. Bank recapitalisations appear inevitable. If taxpayers were to pick up the bill, Portugal’s public debt would rise to almost 100 per cent of gross domestic product...
But the management of the public finances continues to raise eyebrows. The government’s success in reducing last year’s budget deficit to about 7 per cent of GDP owed much to a one-off measure – the transfer of pension fund assets from Portugal Telecom. Ideally, Portugal would emulate Spain and adopt structural economic reforms aggressive enough to relieve market pressures. But if Portugal must apply for aid, it should do so pre-emptively rather than delay to the point where public opinion sees the request as a national humiliation."

Por sua vez, o Wall Street Journal defende igualmente que Portugal devia activar desde já o recurso ao FEEF e ao FMI, até porque a subida das taxas de juros agora anunciada pelo BCE só tornará a nossa situação mais difícil. De acordo com o WSJ:
"The prospect of a rate rise makes life more difficult for Portugal. Its prime minister, José Sócrates, says his country does not need and will not seek a bail-out. But his euro-zone colleagues fear that he is being overly optimistic. The longer he waits to ask for the help they know he will need, the larger the eventual bail-out. Worse still, his stalling is making it more expensive for other countries to borrow as nervous investors fear not only a Portuguese bailout, but a sovereign-debt default that won't stop at the Portuguese border. The eurocracy has reason to worry. New data reported in this paper last week show that Portugal has cash on hand of about €4 billion ($5.5 billion). Next month it must spend more than that to repay one of its long-term bonds, part of the €20 billion it will need this year to repay debt and cover its ongoing deficit, and for which it will have to pay around 7%, an interest rate that most observers agree is unsustainable. In addition, its banks are frozen out of credit markets, and its state-owned companies need to raise €3.8 billion this year. The decision by Rede Ferroviária Nacional, the state-owned railway infrastructure operator, to cancel a €500 million government-guaranteed syndicated bond offer for lack of buyer interest at acceptable rates, is an ominous omen to problems to come."

Dito isto, interessa perguntar: Será que um resgate irá resolver os nossos problemas? Irá um recurso ao FEEF e ao FMI evitar que tenhamos de efectuar decisões mais drásticas, tais como uma eventual reestruturação da nossa dívida? Claro que não. O máximo que um recurso ao FEEF e ao FMI poderá fazer é dar-nos tempo para nos podermos preparar mais adequadamente para outras eventualidades, bem como para tentarmos introduzir algumas reformas estruturais destinadas a melhorar o desempenho da economia nacional. Porém, e perante a enormidade das nossas dívidas, é muito provável que o recurso ao FEEF e ao FMI não seja mais do que uma aspirina que nos irá aliviar temporariamente das nossas queixas, mas que não resolverá as nossas maleitas.
Ainda assim, as restrições de crédito à economia nacional estão a ficar de tal modo críticas e os juros a que nos estamos a financiar estão a ficar de tal maneira elevados que mesmo essa aspirina poderá ser importante para não termos uma travagem económica ainda mais brusca e traumatizante. E é exactamente por isso que o recurso o FEEF e ao FMI poderá ser tão importante, pelo menos a curto prazo.

8 comentários:

Anónimo disse...

Somos governados por um maçom pateta que só faz asneiras e não percebe nada do que diz. O recurso ao FMI é 100% inevitável. Mas esse recurso será uma aspirina muito pequena, pois a dívida é de tal ordem versus a produtividade que é tão pequena, que, no curto prazo, haverá dificuldade em conseguir financiamento. O colapso é apenas uma questão de tempo. Não tenhamos dúvidas disto.

Pedro disse...

Penso que não chega a ajuda : segue-se a reeestruturação da dívida (pagaremos 10%?)e a minha dúvida , só está ,se seremos expulsos do euro, mas, no caminho ainda teremos um "corralito".

Conservador disse...

http://conservadorismo.blogspot.com/2011/03/o-pais-deriva.html

Anónimo disse...

O que eu temo não é o efeito resgate em si. É o que provavelmente irá ser descoberto quando ele começar a andar para a frente. Veremos se será assim ou não.

Manuel Henrique Figueira disse...

Senhor Prof. A. S. P,
A «Bíblia Sagrada» só é sagrada para os cristãos, e talvez nem todos comunguem plenamente dessa crença. No mundo há muitos não-cristãos.
As opiniões do «Financial Times» e do «Wall Street Journal» nem sequer são sagradas, muito menos isentas, pois defendem um determinado ponto de vista, que, como sabe, não passa de uma vista a partir de um ponto.
Há mais pontos a partir dos quais se podem ter outras vistas.
Gostaria que comentasse o ponto de vista de Franck Biancheri, fundador do Laboratoire Européen d'Anticipation Politique (LEAP), sediado em Paris, e Presidente do Newropeans, que, a 3 perguntas do «Expresso» responde assim:
P ─ Quando é que a crise da dívida vai chegar aos «intocáveis», EUA e Reino Unido?
R ─ Já afectou severamente o Reino Unido. As medidas de austeridade da dupla Cameron/Clegg são o equivalente a amputar as pernas e os braços de um paciente para prevenir o espalhar da gangrena. As próprias agências de notação ─ que como se sabe tentam proteger até ao limite esses «intocáveis» ─ acabarão por, nos próximos meses, ter de ver o óbvio: que as medidas de austeridade não estão a produzir os resultados pretendidos de redução da dívida pública do Reino Unido, e de que esta economia está a cair, de novo, na recessão, O descontentamento social desenvolver-se-á ─ é só a partir de Março que os cortes começam a ser mais ─ sentidos.
P ─ E no caso dos EUA?
R ─ Tentam jogar o mesmo jogo. O segundo semestre vai ser o dia do julgamento final. Não pelas agências de notação; mas pelos investidores e os. mercados internacionais. As agências serão seguidistas ─ como Portugal, a Grécia e a Irlanda bem sentiram.
P ─ Mas, com a crise da dívida, a zona euro não corre o risco de colapso a breve prazo?
R ─ Isso estará ultrapassado pelo final deste ano. O processo actual de emergência de uma Eurolândia está a criar a estrutura para uma maior integração da zona euro. A crise desta zona foi, em larga medida, uma tentativa dos «media» britânicos ─ e em primeiro lugar do «Financial
Times» ─ como manobra de diversão para desviar a atenção dos problemas do Reino Unido (e dos EUA). Mas essa tentativa falhou.
M. H. F.

Anónimo disse...

Parece que o orgulho ainda não dá para pagar dívidas...

Anónimo disse...

Prof Santos Pereira
O modo como formula a pergunta é, no mínimo, retórico ou, no máximo, contribui para o erro de paralaxe que domina a análise publicada em Portugal.
Era de todo o nosso interesse colectivo, estar atentos aos sinais que surgem da sociedade: seja o aumento dos crimes violentos, seja a frustação demonstrada por alguns segmentos relevantes da sociedade.
O que queremos para daqui a 10 anos?
O que vamos poder oferecer daqui a 10 anos?
São perguntas mais importantes do que a que formula.
Como sociedade historicamente, eatamos sempre à espera; a atitude gera frustação e descontentamento; se hoje, existem vários fusíveis de segurança, temo que estejamos em fase de esgotamneto desses fusíveis.
Nessa altura, a sua pergunta deixará de ser, sequer, considerada.

Hugo Mendes Domingos disse...

Neste momento, os investidores exigem um retorno superior para financiar o Estado a 5 anos do que aquele que pedem para financiar o mesmo Estado a maturidades superiores. Os números falam.